terça-feira, 14 de outubro de 2008

Confissões de um ex-manipulado



Minha trajetória espiritual é cheia de significados. Quando freqüentava igreja evangélica, devo dizer que atravessei todos os ritos de passagem. A euforia, o entusiasmo e a militância evangelística fizeram parte de meus primeiros anos como membro-habitante dos átrios eclesiásticos. O que concorria com tais sentimentos e práticas eram coisas que hoje já não são mais toleradas como naquela época.


Lembro-me quando entrava na igreja e sentia uma alegria indizível, ao mesmo tempo em que o pano de fundo era cinza, ainda imperceptível. As primeiras orientações que tive na igreja é de que era necessário buscar a Deus. A ordem era expressa. Então embarquei numa odisséia cheia de perigos e aventuras das quais voltei profundamente machucado e frustrado. O próprio pastor estimulava essa busca na sua própria busca à procura de Deus. O âmbito da igreja não era suficiente, deveriam ser explorados outros canais. Visitei inúmeras garagens/igrejas. Onde havia uma tabuleta e uma porta aberta, eu entrava.


Ao mesmo tempo em que outros irmãos da comunidade também concorriam céleres sonhando em acumular dons espirituais e experiências no sobrenatural. Notava que grupos se formavam ao meu redor como equipes de competição. Nos seus olhos eu via uma avidez pelo poder e o menosprezo pelos irmãos que não tinham a mesma visão do deus-prêmio. O aprendizado errôneo que tive me fez refém do medo. Pois nas minhas necessidades vinculava minha consagração como fator predominante na obtenção das bênçãos. Qualquer situação de risco já ameaçava todo ritual de "santidade" ao qual me submetia.



Tinha uma conduta tão irretocável na aparência que me cansava de tanto fingimento. Ensinaram-me que autoridade espiritual era unânime e qualquer crítica à vigência das diretrizes do pastor, eram uma afronta e rebelião contra o ungido de Deus. Acabei sendo selado por muito tempo. Meu bom-senso acabou subjugado pelas ameaças da religião e pelo cabresto da indiferença que me direcionava a caminhos cada vez mais obscuros e distantes da verdade segundo o Evangelho de Cristo.


Aos poucos o pastor da igreja sutilmente, ao mesmo tempo em que trazia uma mensagem piedosa vinha com uma nova proposta de ensino literal da bíblia. Esse novo ensino era disfarçado. Nunca vinha explícito. Mas sempre maquiado como mensagem piedosa. Essa proposta da literalidade da bíblia tinha a ver com suas novas convicções. Sua biblioteca abarrotou-se de livros sobre a confissão literal da bíblia. Eu como tive contato mais íntimo com ele, via a sua frustração com a não adesão das pessoas a essa nova ótica de ver as coisas.


Mesmo assim, a vontade e estratégia aumentaram e mudaram. Investimentos foram feitos. A conquista de novos seguidores da nova ordem holística de se enxergar o espiritual foi o fator nevrálgico para estimular esse conceito. Os estudos eram carregados de uma psicologia disfarçada, onde conceitos sobre metafísica eram enrustidos sobre fundamentos do evangelho. Ou seja, a linguagem literal da bíblia passou a ser mais importante do que o entendimento em espírito. Porque se a palavra de Deus é discernida espiritualmente, alguns eventos têm aplicação contextualizada, todavia, o princípio é único em todas as eras da existência, e que nem sempre são literais ou acontecem por qualquer motivação oriunda de fé ou vontade humana. Ou seja, ficar repetindo aquele verso bíblico diariamente, pensando com isso condicionar a vontade de Deus à minha tática de dobrá-lo ou mover seu poderoso braço faziam parte da minha obstinada busca de uma fé utilitária, de causa e efeito. Conhecida popularmente como "confissão positiva".


A identidade denominacional virou piada. Formaram-se os cartéis de influência pastoral. Novas pessoas eram agregadas à essa nova forma de ver Deus. As tradições foram relegadas. Os homens de Deus classificados como teólogos não tinham mais nada de salutar nos seus ensinos. Foram apresentados os novos decodificadores da bíblia. Entre eles: Essek W. Kennyon (fundador da confissão positiva), Kenneth Copeland, Keneth Hagin (fundador da escola bíblica Rhema), T.L. Osborn, Morris Cerulo (condenado por fraude e enriquecimento ilícito), Mary B. Eddy (fundadora da ciência cristã), R.R. Soares (um dos maiores vinculadores televisivos desses ensinos e responsável por milhões investido mensalmente em mídia evangélica), entre outros.


Agora o que vale é o que se tem na terra. Nesse plano de vida. As reivindicações tornaram-se cada vez mais tenazes, devido a orientação na literalidade da bíblia. E como crianças, via pessoas assim como eu, fazer “pirraça” com Deus cobrando suas promessas que não vinham. Curas que não aconteciam. Milagres que não se manifestavam. Ora, não está escrito? Sim, está. Porém, o entendimento em espírito é a submissão à forma pela qual a Graça de Deus emerge nos tempos e movimentos exclusivos para a sua vontade e glória do seu nome. O não recebimento das bênçãos, significa, segundo as leis da confissão literal, que não se tem fé suficiente para a solução do problema em voga na vida da pessoa desesperada por uma solução. Isso, no mínimo é torturante!


O viés de Deus acontecia enquanto minha determinante vontade seguia direção oposta. Aprendi com o pastor Caio Fábio que tudo que foge ao entendimento do Evangelho segundo Jesus, gera surto e paranóia. E foi assim que surtei. Esquizofrenizado pela minha vontade justificando minha felicidade. Nunca apelei tanto ao meu ego como nessa época. Simplesmente, os interesses do meu próximo foram ignorados. Pessoas que conheci no princípio da minha caminhada cristã, cheias de singeleza, tornaram-se pessoas melindrosas e descaracterizadas por esses ensinos. Enfim, depois de muitas decepções e conflitos, decidi ler a bíblia sem a arrogância das minhas conveniências. Li os Evangelhos como se fosse a primeira vez e deixei que meu espírito se conformasse a nada do que fosse unicamente fé, amor e confiança no cuidado de Deus. Sei que minha vida está Nele, guardada por Ele e que todas as coisas contribuem para o meu bem. Aprendi que com a fé em Cristo, eu venço tudo. Venço a vitória de conseguir; venço o não conseguir, venço o ter; venço o não ter, venço na desesperança e venço na esperança, venço na vida e venço na morte.


Finalmente, após vários anos, começava a amadurecer espiritualmente. Quando rompi com esse status quo, toda superstição, demonização de tudo, ordens expressas a Deus, neurose, crises existenciais, infantilidade e etc...passei a conviver melhor com minha humanidade e aprendi que o melhor da fé é saber, como Paulo ensina: “Sei tanto ser humilhado como também ser honrado. Sei ter muito como também ter pouco. Sei viver exaltado como também despojado. Tudo posso naquele que me fortalece”.
Paulo nos diz que o sinal da verdadeira fé é “saber” viver contente em todas as circunstâncias.


Aos que lêem esse texto, ocultei muitos fatos. Senão tinha que compor um livro para narrá-los. Se por acaso, você leitor está passando por conflitos que tenha a ver com questionamentos à cerca do que descrevi, por favor, não atribua isso a Deus e nem à igreja. O problema não é a igreja, é o que certas pessoas fazem dela. Eu acredito no potencial de uma comunidade cristã quando esta se compromete a reconhecer sua fragilidade e seus erros. E humildemente, exercer altruísmo no local onde está inserida, melhorando a qualidade de vida das pessoas, angariando recursos para serem usados nas obras assistenciais, ensinando as crianças, transmitindo cultura e valores cívicos com a facilidade de vivermos numa sociedade fundamentada sobre valores judaico-cristãos e desta forma, falarmos do valor de quem fundamenta tais princípios, a saber, Jesus Cristo. Será isso uma visão romântico-utópica? Cabe a nós responder com as nossas atitudes e saber que todas as nossas obras quando feitas “em Cristo” são: amor.



Fiquem com meu abraço fraterno.



Por Marcio

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Um comentário:

M. Luquine disse...

Lindo texto!!!
O Reino de Deus é tão simples... por que as pessoas complicam tudo???
Viva intensamente e seja livre...ame... ame... ame... Esse é o Reino de Deus no altar do coração! É o que vale de fato...