sexta-feira, 26 de setembro de 2008

SIRVO A DEUS APENAS POR NADA

Ultimamente tem sido muito difícil freqüentar a igreja onde congrego. Com o passar do tempo, tenho reduzido minhas visitas apenas aos dias de ceia. Por quê? Bem, minha tolerância foi elevada ao extremo devido às discrepâncias das práticas rituais e, sobretudo o uso de uma linguagem cada vez mais distante do entendimento comum, o evangeliquês. No último culto que prestei a meu Deus – o que fiz com muito custo - tive que suportar o “pregador” enredar o texto bíblico de I Samuel, capítulo 17 à sua própria orientação Keneth Haguiana interpretativa. Senão, vejamos o texto:

O desafio de Golias:
Prólogo: O texto fala da guerra entre filisteus e israelitas duma banda a outra do vale de Elá. Do lado filisteu - representado por um guerreiro-bárbaro, estava Golias sintetizando a guerra, sugerindo um único confronto direto com o representante de Israel. O perdedor do embate serviria como nação ao vencedor. A seguir, vejamos alguns versos na seqüência expositiva:

10 Disse mais o filisteu: Hoje, afronto as tropas de Israel. Dai-me um homem, para que ambos pelejemos.
11 Ouvindo Saul e todo o Israel estas palavras do filisteu, espantaram-se e temeram muito.
(.....)
16 Chegava-se, pois, o filisteu pela manhã e à tarde; e apresentou-se por quarenta dias.
(.....)
23 Estando Davi ainda a falar com eles, eis que vinha subindo do exército dos filisteus o duelista, cujo nome era Golias, o filisteu de Gate; e falou as mesmas coisas que antes falara, e Davi o ouviu.
24 Todos os israelitas, vendo aquele homem, fugiam de diante dele, e temiam grandemente,
25 e diziam uns aos outros: Vistes aquele homem que subiu? Pois subiu para afrontar a Israel. A quem o matar, o rei o cumulará de grandes riquezas, e lhe dará por mulher a filha, e à casa de seu pai isentará de impostos em Israel.
26 Então, falou Davi aos homens que estavam consigo, dizendo: Que farão àquele homem que ferir a este filisteu e tirar a afronta de sobre Israel? Quem é, pois, esse incircunciso filisteu, para afrontar os exércitos do Deus vivo?
(.....)
33 Porém Saul disse a Davi: Contra o filisteu não poderás ir para pelejar com ele; pois tu és ainda moço, e ele, guerreiro desde a sua mocidade.
34 Respondeu Davi a Saul: Teu servo apascentava as ovelhas de seu pai; quando veio um leão ou um urso e tomou um cordeiro do rebanho,
35 eu saí após ele, e o feri, e livrei o cordeiro da sua boca; levantando-se ele contra mim, agarrei-o pela barba, e o feri, e o matei.
36 O teu servo matou tanto o leão como o urso; este incircunciso filisteu será como um deles, porquanto afrontou os exércitos do Deus vivo.
37 Disse mais Davi: O SENHOR me livrou das garras do leão e das do urso; ele me livrará das mãos deste filisteu. Então, disse Saul a Davi: Vai-te, e o SENHOR seja contigo.


O “pregador”, movido pela volúpia da “teologia da prosperidade”, afirmou que o que motivara Davi a enfrentar o gigante seriam as benesses oferecidas por Saul (grandes riquezas, isenção de impostos e por fim, sua própria filha por esposa) e não a afronta aos exércitos do Deus vivo, o que de fato era uma afronta ao próprio Deus. Observando o verso 26 vejo a escala de valor proposta por Davi, ou seja, o que vale mais, as riquezas desse mundo ou a honra de Deus? Ou melhor, a honra de Deus é defendida a preço de recompensa? Claro que não. Só que esse simulacro de relacionamento com Deus proposto pelos anais dessa teologia que espolia a Graça de Deus, demonstra com tal afirmação, que nosso relacionamento com Deus é um tratado de recompensa. Melhor dizendo, obedecemos a Deus para sermos recompensados. Observe que é uma relação utilitarista. É o Deus pragmático, que me serve para me abençoar desde que eu o obedeça. Logo após, afirmou que nossos dízimos e ofertas são subtendidos também a grau de recompensa, ou seja, se as “janelas dos céus se abrirão e sejam derramadas benções sem medida.” eu dízimo não em caráter da comunhão, para que as necessidades dos santos sejam supridas, mas, por medo de ver ruir meus negócios, não ser alcançado pelas pestes e pelas maldições do deus bruxo-banqueiro. E no campo dos milagres... Também foram feitas ousadas asseverações. Milagre é regra. É recompensa da fé. Se eu tenho fé, tenho milagre, essa é a regra! Se não tenho milagre, não tenho fé, ou não a possuo em nível mais elevado. Como eu já passei por isso, sei exatamente o que é viver escravizado pelas atitudes que podem comprometer minha escalada no Everest da fé. Vivia com medo de perder a “benção”. Não tinha paz. Vivia obstinado na tentativa de “mover o braço de Deus”. Que desacordo com a graça! Fé para mim hoje, significa o que Ricardo Gondim expressa com excelente clareza:

"Fé já não significa para mim uma força projetada na direção de Deus que o induz a agir. Não entendo que Deus esteja inerte, esperando pela habilidade das mulheres e dos homens de mexerem com seu braço. Inclusive, parei de dizer que fé move o braço de Deus.

Fé já não significa para mim uma senha que escancara as janelas das bênçãos celestiais. Rejeito a noção de que Deus oculte suas maravilhas ou dificulte nosso acesso a elas. Não precisamos nos comportar como crianças que caçam ovos de chocolate na Páscoa. Aliás, considero a expressão “conquistar uma graça” uma contradição tão horrorosa, que me arrepio todas as vezes que a ouço.

Fé significa para mim uma aposta de que os valores, os princípios e as virtudes do Evangelho bastam para que eu enfrente a vida com todas as suas contingências. Vejo que personagens bíblicos não arredondaram a vida, não se anteciparam aos acidentes futuros e nem se blindaram contra as maldades humanas. Igual a eles, não quero viver em redomas.

Fé significa para mim que o Espírito de Cristo dá ganas de olhar para história com coragem para não precisar apelar para o mágico, para o feitiço e para o sobrenatural. Por causa da fé não pedimos para ser poupados da dor. A fé bíblica convoca que andemos nas pegadas de Jesus e não encolhamos diante do patrulhamento religioso, da perseguição e da morte impostos pelos regimes imperialistas.

Fé significa para mim a possibilidade de rebelião contra o status quo porque ele não reflete a vontade de Deus. O sofrimento humano não faz parte de uma Providência remota, as catástrofes não são dores de parto que prenunciam o alvorecer de um futuro glorioso.

O colonialismo que condenou centenas de milhões de negros a horrores indescritíveis, as guerras inúteis que dizimaram jovens ingênuos, os horrores da prostituição infantil, não foram planejados por Deus. Convivemos com um sistema em aberta rebelião contra o Criador e contra ele devemos nos insurgir.
Existe uma fé profética, visceral, que me convoca a gritar NÃO! Ela me deixa irrequieto. Minhas zonas de conforto acenam na minha própria cara, pois vivo atrelado ao sistema pequeno-burguês que legitima a deterioração ambiental; calo diante do capitalismo neoliberal que produz excluídos; acovardo-me diante das ameaças de ser um exilado social.

Já que abandonei o paradigma de uma fé funcional, utilitária, de causa e efeito, quero, tão somente, ter peito para aceitar o risco de viver sem pé de apoio, de viver a liberdade prometida por Cristo e de almejar uma única segurança: saber-me gratuitamente amado de Deus."


Minha oração é que Deus abra os olhos dessa turma...e que a plataforma ou púlpito de uma igreja, seja um lugar onde se apresente um Deus amigo para que saibam que quem se aproxima de Deus tem de ter a intimidade do filho aliada ao profundo respeito à criatura.

Um abraço fraterno a todos....

Por Márcio

Um comentário:

Daiane disse...

Só mesmo um Deus misericordioso!
E a única certeza é que sua justiça não falha.
DEUS É DEUS e sempre será.
Tem mta gente se achando deus por aí... e mta gente se deixando enganar por não conhecer realmente a verdade.